“Para o substituir (de outro modo) há Moniz Barreto, implacavelmente psicólogo, e tão terrivelmente homem-de-livro, que quando a gente diz ‘está calor,’ ele acode logo – ‘já leu sobre isso tal e tal? leia sobre isso tal e tal!’ É pavoroso!” – Carta de Eça de Queiroz à esposa, 24 de Julho de 1893.

4 de fevereiro de 2018

A Cada Esquecido o seu Adido



Comecemos com um cliché confortante e passemos aos poucos para pensamentos mais complexos e inquietantes. “Habito um país sem memória – alguém sabe de lugar mais triste?” Um poeta disse isto, logo deve ser verdade. Sabemos, desde Álvaro Ribeiro, que em Portugal a poesia substituiu a filosofia, os poetas foram os nossos maiores pensadores, os seus versos assombram-nos com todo o rigor do seu acúmen sentimental. É claro que Eugénio de Andrade, ao recorrer a uma ideia feita, só poderia ter tido uma atitude bisonha em vez de crítica.

O hábito, porém, estava do seu lado. Como porta-voz da identidade colectiva, quem ler esta frase verá acreditada a crença casmurra de estarem os portugueses a um passo de perderem o património, de espreitarem da beira dum precipício um abismo sempre atarefado a abocanhar toda a história, toda a identidade, condenando todos à amnésia. Já Bernardino Machado afirmava que os males de Portugal provinham do “esquecimento dos bons e maus dias” armazenados nas traseiras de si mesmo. Contudo, por altura desta afirmação Portugal vivia uma época dourada da Historiografia, com o século balizado por dois historiadores que nunca permitiram aos portugueses que se esquecessem das suas desgraças históricas, nem pensaram a história senão como algo vivo e directamente responsável por uma alegada decadência. Da História de Portugal de Alexandre Herculano ao Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins, o tom do historiador oitocentista foi negro que nem bocas escorbúticas. É a vontade de se esquecer o que se retém da leitura das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares? Estas três figuras monopolizaram os maus dias; para os bons dias havia a História Alegre de Portugal do patrioticíssimo Pinheiro Chagas. Nunca até então se estudara tanto e de forma tão crítica o nosso passado: deu-nos este século a História da Administração Pública em Portugal, a História da Filosofia em Portugal, a História da Literatura Portuguesa, a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal e muitos outros estudos ainda basilares para historiadores modernos.

Bernardino, porém, não era um historiador, era um pedagogo, e a questão do esquecimento atormentava-o da perspectiva da reforma da instrução pública, outro tópico obsessivo para os seus coevos, incluindo Herculano, Antero, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão. Preocupava a Bernardino o esquecimento da tradição, da portugalidade; por reforma da instrução, ele, como tantos republicanos finisseculares humilhados pelo ultimato britânico de 1890, entendia reaportuguesá-lo, por se encontrar num estado tão lastimável que dele nada saía senão uma prole desenraizada, desorientada, desanimada e descrente da Pátria. O historiador Vasco Pulido Valente sintetizou assim o pensamento dele:

Significativamente, as «classes menos incultas sabem de cor os nomes das notabilidades francesas, repetem as frases dos seus discursos (e) os seus versos», mas, em contrapartida, não «lêem Garrett», nem «lêem João de Deus», um antepassado próximo e um contemporâneo. Portugal vai «sendo (conquistado) pelo sangue e pelo espírito (estrangeiros)», isto é, culturalmente colonizado. (Uma Educação Burguesa, p. 129)

Não é preciso mudar nada a isto para se conservar a actualidade do medo da evaporação da cultura nacional; não falta nem a chauvinista olhadela de soslaio aos estrangeiros responsáveis por isso. João de Barros, outro republicano e continuador das suas ideias pedagógicas, também quis extirpar do ensino “qualquer vestígio do estrangeiro” e pôr toda a gente a ler os clássicos lusíadas. Nem Barros nem Bernardino tinham pejos em ostentar o seu nacionalismo empedernido por uma boa causa. Este medo de contaminação relativo a tudo quanto nascesse além-fronteiras, meio século mais tarde, tornar-se-ia o cavalo de batalha dos filósofos filofascistas ligados ao Estado Novo, o Grupo 57. Esta é uma das muitas semelhanças entre a I República e o Estado Novo que merece mais atenção dos historiadores.

Findo o fascismo, restaurada a República, a Europa o Éden, nem por isso o medo do forasteiro se esbateu por cá. A presumível iminência do fim da Portugalidade levou os nacionalistas a se entrincheirarem num culto dos clássicos, ou pelo menos do passado. Os contemporâneos, esses, estavam mais expostos à corrupção. “Eça é um escritor europeu, não um escritor nacional,” escreveu Fialho de Almeida escreveu ainda o cadáver dele mal arrefecera. Isto não foi um elogio; o cosmopolitismo, depois de 1890, não era chique; aliás “todos os desnacionalizadores são prejudiciais e devem ser banidos,” a começar pelo maior e pior de todos, o autor d’Os Maias. Devia haver uma síndrome com o nome de Fialho porque nos dias de hoje muita gente padece dela. As condições sociopolíticas deste nacionalismo finissecular podem ter passado, pode já nem ser aceitável estadeá-lo, mas desse tempo pelo menos permaneceu o culto do passado. Por exemplo, perguntaram em 2014 a Teolinda Gersão, “Vivem os autores portugueses na sombra dos seus antecessores?” Respondeu: “Creio que não, até porque de um modo geral, à excepção talvez de algumas obras de Pessoa, não os lêem. Como acreditam que «lá fora é que é bom» e o mercado e os mídia corroboram fortemente essa ideia, são os «modelos» estrangeiros que vigoram. Basta entrar em qualquer livraria para ver o que nos oferecem os escaparates. Para o mercado nacional, o que aqui se escreve interessa muito pouco.” Em Março de 2017, reiterou esta posição ao receber o Prémio Vergílio Ferreira:

Para Teolinda Gersão, em Portugal, ainda vigora a ideia de que “o que vem de fora é que é bom”, pelo que, por exemplo numa livraria, “só se vêem livros traduzidos, fundamentalmente, de língua inglesa, quase todos” de autores “americanos”.

E os autores portugueses, comparou, “estão numa prateleira, algures lá atrás ou, quanto muito, estão 15 dias nas bancadas, normalmente, nunca nas vitrinas ou muito pouco”.

Disto se depreende que a diferença entre se ler estrangeiros e autores portugueses antigos é uma questão de discernimento. “Mas ler os estrangeiros não é bom?” pergunta ela retoricamente. “Claro que sim, mas é preciso ter sentido crítico e saber escolher, e estamos inundados de fogos-fátuos e desinformação. Não é cidadão do mundo quem quer, é preciso fazer uma longa caminhada. E sem se conhecer a si próprio e ao seu país, também não se é capaz de entender os outros.” Isto lembra-me a caricata teoria de Jaime Cortesão de que Dom Quixote não pode ser entendido totalmente sem se ler Os Lusíadas, o que milhares de estudiosos pelo mundo fora têm desmentido. Dentro das boas intenções de Gersão oculta-se um comodismo perigoso. Porque é que não é preciso sentido crítico na escolha desses autores portugueses? Porque já foram filtrados pelo Tempo? Porque se mumificaram em clássicos? Deve então o leitor ser conduzido aos clássicos como uma vaca a um prado? Os clássicos não são iguais em qualidade, não merecem ser aceites incondicionalmente apenas por obra e graça de um rótulo aleatório. Não há nada de estranho ou de sacrílego em leitores os rejeitarem precisamente porque o seu sentido crítico lhes apontou opções mais interessantes. Esta entrevista a Gersão, concedida ao website Projecto Adamastor, pertence a uma série intitulada “Porquê Ler os Clássicos?” Em cada entrevista se perguntava: “Eça e Pessoa continuam a ser bastante lidos, mas nem todos tiveram tal sorte. Que autor português considera que foi imerecidamente votado ao esquecimento?” Os entrevistados logo arrebataram a oportunidade para propalar o mito de um país desmemoriado. O chauvinismo do século XIX passou de moda, mas suspeita-se ainda de que a cultura portuguesa vive sitiada por sinistras forças transatlânticas e transpirenaicas minando tudo o que é mais autenticamente nosso, seja lá o que isso for.

A humilhação do Ultimato abalou até Eça, de quem esperaríamos imunidade. A leitura arrebatada de A Vida de Nun'Alvares levou-o a pedir a Oliveira Martins que estendesse seus dotes aos outros vultos da história pátria presos no “limbo obscuro”. 14 anos antes gozara com o Centenário de Camões por ser um espectáculo piroso virado para o passado, sem poder efectivo para incentivar o presente à acção construtiva. A questão talvez seja cultural: é-nos incutido desde crianças que os melhores dias estão 500 anos atrás de nós e à frente apenas se dilata uma perpétua decadência. Se não vale a pena esperarmos nada do futuro, temos de usar todos os recursos para proteger esse passado glorioso. O chauvinismo subjacente ao antigo culto dos esquecidos esvaneceu-se com o descrédito do nacionalismo, mas nem por isso o medo de apagamento donde ele nasceu. Eça, Antero, Martins, levavam a sério a possibilidade de que Portugal deixasse de existir. Hoje em dia este culto dos esquecidos sobeja na imprensa como um pranto instintivo e sem critério por qualquer escritor morto há décadas. Garantem-nos os jornais e as revistas, com o seu poder gerador de pânico, que hoje em dia já nem ninguém se aventura com livros mais velhos do que os restauros dos armazéns do Chiado. Não passa uma semana sem o Público, o Expresso, o Diário de Notícias, o Observador, nos terrorizarem com um horizonte vazio de referências ou nos fazerem sentir idiotas por não lermos o falecido dilecto do cronista. Todas as ocasiões servem para isso, sobretudo entregas de prémios literários. “Um dos problemas portugueses é o de tratarmos mal e esquecermos o nosso passado, tanto no domínio das letras como em outros, nomeadamente até na história,” declarou Paulo Castilho quando recebeu o Prémio Fernando Namora. Por fim virou tema de festival literário, com Eduardo Cabrita certo de que “os portugueses são um povo de memória curta.”

Este tipo de discurso, entre o choradinho e o raspanete, já se tornou um género literário com estrutura própria, como romances de cavalaria ou relações de naufrágios quinhentistas. Geralmente, o apontamento apocalíptico vem no começo.  Em 2001, Carlos Câmara Leme abriu o centenário de José Rodrigues Miguéis logo a matar, explicando que ele é “hoje um escritor esquecido, como tantos outros, da primeira metade do século XX português, e a que, pelo andar da carruagem, se juntarão muitos outros da segunda metade.” Valdemar Cruz escarrapachou o tema logo no título: “Aquilino Ribeiro, o mestre esquecido.” Baptista Bastos, iconoclasta, inverteu o molde. Em 2008, evocou o velho camarada Fernando Namora no Jornal do Fundão. O previsível gemido só chegou no final. “O tempo vai dar tempo ao tempo para que muita coisa se recomponha. E a obra de Fernando Namora é uma, importante, a recuperar e a reabilitar. Porque é infinitamente melhor, mais original e mais importante do que a esmagadora maioria do que por aí se edita.” O porquê dessa importância ficou por explicar, o que é outra característica deste género: o pranteador sempre se desobriga de justificar meras escolhas pessoais. O género tem por veículo-mor a crónica, com todos os limites de raciocínio que isso implica; a crónica, com as suas 700, 800, 900 palavritas, não se avém com argumentação alongada ou, o que é pior, citações de trechos literários. Há cronistas que se multiplicam em elogios a um escritor sem jamais citar no texto um verso ou frase da sua obra. A crónica não argumenta, afirma; a curteza do formato não dá para mais. Chega assim a haver opinadores culturais que desancam os leitores por este ou aquele esquecido sem jamais questionarem as premissas deste mito.

Poucos praticaram tanto este género como o memorioso Baptista Bastos. Em 2013, perguntava

Que lê o dr. Pedro Passos Coelho? Alguma vez frequentou, com mão repetida e curiosa, Oliveira Martins, Lúcio de Azevedo, Oliveira Marques, António Borges Coelho e as páginas que eles escreveram sobre a História de Portugal? A pergunta, modesta e um pouco melancólica, é extensiva a todos os governantes sem excepção. Algum deles leu António José Saraiva, Barradas de Carvalho, Bento de Jesus Caraça, Óscar Lopes, ou Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Branquinho da Fonseca, Domingos Monteiro, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Manuel Mendes, José Rodrigues Miguéis, Flausino Torres, Mário Dionísio, Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, Eugénio de Andrade?

Tinha um carinho especial pela lista; ao encurralar muitos nomes aleatórios num parágrafo, conseguia transmitir a iminência de um ocaso civilizacional. Atingiu a apoteose no artigo “O dever da memória” com esta hecatombe:

Já poucos sabem quem foi (é) José Gomes Ferreira, o autêntico, um dos poetas fundamentais do século XX. Aquilino, Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Nemésio, Miguel Torga, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, José Cardoso Pires, Nuno Bragança, Augusto Abelaira, Mário Dionísio, João José Cochofel, Joaquim Namorado, Antunes da Silva, Garibaldino de Andrade, Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, João Apolinário, João Gaspar Simões, Domingos Monteiro, João Pedro de Andrade, Álvaro Salema, Joel Serrão, Vitorino de Magalhães Godinho, Vitorino de Magalhães Vilhena, Manuel Valadares, Bento de Jesus Caraça, Abel Salazar, Alexandre Pinheiro Torres, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Branquinho da Fonseca, José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Armindo Rodrigues, Irene Lisboa, Maria Archer, Natália Correia, Fernanda Botelho, Maria Judite de Carvalho, Ary dos Santos.

Uma lista, contudo, não substitui a reflexão, e ele nunca se perguntou por que razão estes escritores, se foram tão grandes assim, acabaram esquecidos tão depressa. Um dos meus problemas com estas listas é que elas nem chegam a ser uma defesa dos nossos clássicos. Para começar, não há sequer muito consenso em Portugal sobre quem são exactamente os “clássicos portugueses.” Decerto, muitas editoras abusam desse rótulo e fazem colecções sob essa égide. Mas, tirando Luís de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoas, quantos nomes são consensuais entre nós? É Sá de Miranda um clássico só porque viveu há 500 anos? É Oliveira Martins um nome assim familiar quanto isso? Quantas pessoas saberiam identificar o autor de Jogo da Cabra-Cega só pelo título? As figuras listadas por Baptista Bastos são todas fulcrais? O problema de termos tido um povo analfabeto por tanto tempo e um escol obcecado pelo estrangeiro, é que nunca tivemos um debate verdadeiro sobre quem são os nossos clássicos. O que temos é um acúmulo de muitas e muitas pessoas, amadas por estes, lidas por aqueles, mas quase nenhuma familiar à maioria da sociedade, o que é um critério para se aferir um clássico.

Uma lista, pela sua imponência, ajuda a esconder a falta de cogência por detrás da selecção. Foram todos estes escritores iguais no talento? Vários tiveram dúvidas sobre os outros; vários nem quereriam ser apanhados a partilhar a posteridade com os outros. Muitas vezes apontou Adolfo Casais Monteiro as fraquezas de Aquilino Ribeiro. Álvaro Salema tentou demolir Tomaz de Figueiredo nas páginas do Diário de Lisboa. Tomaz, por sua vez, detestava Torga e não podia ver pela frente Redol, Namora e demais neo-realistas (“literatura piolhosa,” escreveu). Vergílio Ferreira perguntou, “É como arte que se prefere o neo-realismo, quando se prefere?” (Jornal do Fundão, 03/03/63.) O ecumenicamente odiado João Gaspar Simões deve ter escrito, em dado momento da vida, pelo menos uma resenha negativa a cada figura evocada por Baptista Bastos; avaro a conceder títulos de grandeza a qualquer um, a sua lista teria sido magra como ele nunca o fora. E depois quem ler a correspondência de Jorge de Sena perde logo vontade de ler dois terços da lista, tão sedutoras são as birrinhas dele contra os confrades, os quais achava quase sem excepção medíocres. Como os achou Mário Cesariny quando o entrevistou o Jornal de Letras (16/08/62). Pode-se facilmente escrever uma história da tradição de os autores portugueses acusarem as próprias épocas de incompetência generalizada, excepção feita ao acusador e compinchas.

Tais listas são paradoxais: por um lado engrandecem; por outro diminuem a agência dos escolhidos. Passaram a vida a atirar-se às goelas uns dos outros, a avaliaram-se, a intrigarem, a lutarem para não acabarem todos no mesmo patamar. A lista, tão católica, apaga toda essa actividade intelectual e qualitativa, apaga mesmo o passado, põe-nos em pé de igualdade, sem apelação nem direito a contradita. Diz-se que o tempo separa o excelente do excedente, mas aqui todos acabam resgatados. Quão maçadoramente Nações Unidas, o tempo. Pois os que se rilharam uns aos outros semanalmente não estiveram certos pelo menos uma vez? Se foram todos talentos imortais, porque faltou esse talento na hora de emitirem juízos uns sobre os outros? Vamos descartar isto com a velha desculpa da inveja? Não houve também juízos negativos justos e desinteressados? Isto são perguntas legítimas caladas pela lógica simplista do formato da lista.

Estas listas são, demasiadas vezes, erupções emotivas donde a nostalgia sai aos jorros sem controlo. Se detestamos um escritor, dizemos que o tempo julgará; damos tal processo por idóneo, imparcial, democrático. É um mecanismo de defesa; a maioria dos leitores e autores na verdade morrerá sem nunca saber o veredicto final sobre a obra literária. E quando acontece que o tempo toma de ponta os nossos escritores, bem, aí o processo torna-se injusto, ignorante, conspirador. É da política, é das tricas académicas, é das capelinhas, é da tecnologia que nos anda a imbecilizar. Os opinadores culturais nunca aceitam que os imbecis, usando critérios estéticos rigorosos e válidos, possam ter decidido não atribuir qualquer grandeza aos seus favoritos. Esses opinadores querem esses nomes insculpidos menos por mérito do que por solidariedade geracional, por recordações de dias felizes, por sentimentalismo. Baptista Bastos foi um jornalista diligente que saltou de periódico em periódico; tendo em conta que quase todos os escritores então escreviam na imprensa para ganhar a vida, deve-se ter cruzado com cada um deles numa redacção em algum momento. As suas listas prolixas deixam claro que ele não fez nada mais exigente do que repescar ao trouxe-mouxe os nomes dos que povoavam os jornais dos anos 60, quando se estreou no jornalismo. Quando este é o critério, fazer listas é fácil. Poderia ter acrescentado outros nomes. Por exemplo, porque ele esteve sempre ligado à esquerda, nota-se que as suas listas incluem poucas figuras da direita. Isso é um critério emotivo, não tem nada que ver com merecimento.

Usar-se a memória como critério é um problema porque leva a um argumento simplista: se me lembro dele, então tem de ser lembrado. Ocorre também um auto-envaidecimento: uma pessoa assim sente-se privilegiada por ter partilhado, por acaso, o mesmo momento neste planeta e momento com todas aquelas entidades espectaculares. Quais são as probabilidades de se nascer numa geração tapizada de génios? Em Portugal são mesmo muito boas! A literatura não é uma caridade; o talento é sovina, não partilha os seus dons com as massas por geração – excepto por cá. Quem ler as nossas crónicas com a sua incontinência nostálgica, quem ler as entrevistas auto-jaculatórias dos escritores na casa dos 70, aprende que nunca houve escritor português do passado que tivesse de partilhar a mesma geração com um medíocre; foi tudo porreiro, foi tudo maravilhoso, foram todos os melhores. A merda fica sempre reservada para a geração actual, a merda escoou toda para o ponto no tempo onde estamos agorinha mesmo, até ele próprio se tornar passado um dia destes; então outros génios brotarão como cogumelos do esterco.

Baptista Bastos gostava de evocar amigos; gostava de contar episódios e anedotas acerca deles. Isso é louvável e os biógrafos e sociólogos da literatura ficar-lhe-ão gratos para sempre. Mas nem todos os amigos e conhecidos e colegas de trabalho são geniais, nem todos são talentosos, nem todos merecem um cenotáfio. Porque cada um transforma a sua geração na melhor de sempre, fica ressentido quando outros não abdicam do dever de pensar pelo próprio cérebro.  Por isso este género literário tem sempre um resulho de raiva e amargura. Daí a agressividade nas crónicas de Baptista Bastos. Compreendo o apego a certos livros; quando falam no “romance do século,” eu preferia que pensassem em Dom Tanas de Barbatanas em vez do concentrado de tédio que é Mau Tempo no Canal, mas o meu ego há-de sobreviver ao atentado ao meu gosto subjectivo. Os nostálgicos, dado o investimento emocional, encaram a indiferença como uma afronta pessoal, como um desdouro da sua personalidade. Por ser difícil aceitarem que possam estar errados, têm de encontrar bodes-expiatórios. Assim, este género também envolve ataques aos leitores, acusações de ignorância, pronunciamentos sobre a degradação da cultura, a tendência para desvalorizar os escritores actuais, para lhes negar qualquer valor.

Simultaneamente, há resistência à reavaliação dos que outrora foram tidos por excelentes, por que razão são todos “clássicos” sem nenhum o ser realmente. Se Namora foi o escritor mais vendido em Portugal dos anos 60, porque é que não haveria de o ser agora? Esse é o raciocínio de Paulo Castilho:

“Esquecemos muito os escritores. Em Portugal, esquece-se tudo, um desses casos é o próprio Namora. Ganhei agora o Prémio Fernando Namora, mas o próprio Namora é pouco conhecido. A geração mais nova não faz ideia da popularidade que teve o Namora. De repente, caiu no olvido total. Toda a gente acha que está a descobrir o mundo e, portanto, como dizia um pensador americano, estamos condenados a repetir o passado.”

Não reparou que repetir o passado é tentar devolver a estatura que Namora teve 50 anos atrás, a qual se deveu a condições sociopolíticas muito concretas e que não se poderiam nem deveriam repetir hoje em dia, a não ser que Castilho queira mesmo voltar aos dias em que a esquerda policiava a cultura e aureolava talentos duvidosos, através de revistas sectárias como a Vértice, resenhas sempre positivas de camaradas como Mário Dionísio e Alexandre Pinheiro Torres, e os prémios da SPE, tidos por viciados na praça pública, em nome do esforço anti-fascista, honroso, claro, mas responsável por uma inflação literária, a qual, como uma bolha especulativa, acabaria por levar a crises e bancarrotas. Não menos espantado se declara o actual Ministro da Cultura por estarem hoje em dia esquecidos os que em vida foram levados em andores pelos críticos. “Há muitos escritores esquecidos e alguns sempre foram mal conhecidos, o que é mais impressionante são os escritores que eram muito estimados numa época e desaparecem.” Porém, a história da literatura é clara nisto: quem foi famoso e popular em vida, rápido se apaga; quem viveu ignorado, maltratado ou incompreendido, tem boas hipóteses de agarrar a imortalidade. Dos milhares que acompanharam o cortejo fúnebre de um versejador assim-assim como Guerra Junqueiro, com honras de Estado, quantos já haviam lido Cesário Verde? Até Fernando Pessoa, quando questionado por Boavida Portugal, achou Junqueiro maior do que Luís de Camões. António Vieira, depois de ter conquistado a Europa com os seus sermões, recebendo pedidos de papas e imperadores para agraciar as suas cortes, passou os séculos XVIII e XIX na escuridão porque os críticos achavam o seu estilo pesado, obscuro, anti-intelectual. O que Teófilo Braga escreveu acerca dele é de um sectarismo anti-religioso nas raias do fanatismo. Vieira, bem como o nosso Barroco, tiveram de esperar pelo século XX pelo reconhecimento. Isto, porém, não é nada que não aconteça pelo mundo afora; não há país que não seja genial a desprezar os seus génios. No nosso caso, porém, da crença nesta amnésia colectiva nasceu uma tese essencialista que faz de nós excepcionais. Quem ler os nossos preocupados custódios, aflige-se com a exclusividade portuguesa desta maleita. Todavia, revejo-me nas palavras pacatas do poeta Haroldo de Campos, que reabilitou antigos poetas brasileiros ignorados pela academia. Quando um entrevistador lhe perguntou como é que o Brasil “pôde esquecer ou marginalizar poetas tão geniais,” Campos não se indignou. “Isso é uma característica constante não só no nosso país, mas na literatura de um modo geral.” Nunca é demais recordar a desventura de Eça de Queiroz, o qual nem se apurou entre os 3 escritores mais notáveis do seu país num plebiscito realizado em 1884 pelo jornal O Imparcial. Por essa altura já publicara O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e O Mandarim, um currículo que não o impediu de ficar em 4.º lugar, atrás de Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas e Latino Coelho. Em 1887, A Relíquia perdeu um prémio literário para uma peça de teatro de que não reza a história. Tão desestimado era Eça que a primeira edição de Os Maias levou 15 anos a esgotar os seus 5 mil exemplares. Nem a morte, em 1900, lhe deu um empurrão; o alvoriço na chegada do caixão de Paris levou Fialho a insurgir-se contra este que considerava um escritor menor, pois roubava protagonismo ao “verdadeiramente grande, o outro, o nosso” Camilo que “lá jaz no Porto esquecido e tratado como um cão.” Este terror de que a sombra de Eça fizesse mirrar todos os outros repetiu-se 3 anos depois quando o Correio Nacional usou a inauguração da sua escultura no Largo Barão da Quintela para perguntar, “E erguem-lhe uma estátua! Porquê? Camilo e Herculano e Oliveira Martins têm estátuas algures? E Garrett?” Eça teria de esperar, em Portugal (não no Brasil), pelo Centenário de 1945 para se afirmar como o nosso maior romancista.

Todos os países esquecem escritores; isso não é extraordinário. Estranho é o mito do excepcionalismo português resistir a todas as provas. Entre nós não se percebe que isto é um processo de selecção natural e necessário. Luís Gonzaga rabujou no limiar de uma apoplexia por causa de Gomes Leal. (A Vida Portuguesa, 06/05/1913.) Em 1924, o jornalista Francisco Mayer Garção publicou Os Esquecidos, uma recolha de artigos sobre vultos da sua geração a quem Cronos não estendeu a mão.  Em 1933, na Seara Nova, José Osório de Oliveira escreveu sobre “Os mal conhecidos”. Em 1945, a revista Aléo apresentava Bocage como um “um grande poeta esquecido.” O nosso mais obsceno e irreverente poeta devia estar mesmo em apuros para não encontrar melhor paladino do que um semanário católico-nacionalista-monárquico-fascista. Em 1952, Pedro da Silveira escreveu na Ler, “Todas as gerações, todas as épocas, têm o seu rol de esquecidos. Poetas, escritores, artistas, o tempo, implacável, apagou-lhes, justa ou injustamente, os nomes.” O artigo de Silveira chama-se “Os Esquecidos da Literatura,” mas não é o resmungo habitual; é a aceitação calma de que cada geração produz muitos escritores menores populares que escrevem livros cativantes, dignos de estima, mas nem por isso destinados ao cânone. Quem lerá os ensaios de Moniz Barreto senão o ecianista? Quantos lerão por gosto Silva Pinto e Silva Gaio, Sílvio Rebelo e Rebelo da Silva? A quantos interessarão os poemas de Virgínia Vitorino e Virgínia de Castro e Almeida? Quem hoje é capaz de distinguir Monteiro Ramalho de Ramalho Monteiro? E se já é pedir muito que se leia um óptimo camonista como o Conde de Ficalho, anda Fialho assim tão safo? Longe da atenção andam António Ferreira, Ferreira de Castro e Castro Soromenho; e Faure da Rosa, Rosa Lobato Faria e Faria e Sousa; e os muitos Figueiredos da nossa literatura – a Carmen, o Antero, o Campos, o Fidelino, todos muito lidos, muito comprados, muito aclamados em vida, e depressa esquecidos. Deles eu só conservaria Tomaz, e não por A Toca do Lobo.

Porque mudam os esquecidos de cronista para cronista, cabe ao leitor comum a obrigação de preservar na memória uns milhares de nomes para não passar por simplalhão. Tantos assim não merecem tamanha honra das minhas sinapses. Também às livrarias cabe o dever de prover as estantes com todos os livros de todos eles. Sempre, para sempre. Não haver numa livraria os 60 volumes de Agustina Bessa-Luís, mas apenas 59, é prova cabal de que o livreiro não leva a sério a profissão. Lá porque Homero dormitasse, nunca os nossos notáveis puseram uma palavra sem prodígio na página. Oxalá isso fosse verdade, mas nenhum escritor morre sem publicar muita porcaria. O tempo não separa apenas o joio das jóias, também joeira a carreira em si. Só uma livraria utópica pode, ou deve, conter toda a obra de um dado escritor. Os 250 livros de Camilo foram todos esplendorosos? Nem João Bigotte Chorão acredita nisso. O delírio de que tudo deve ser preservado agrava-se pelo facto de a nossa crítica literária insistir em tratar cada novo livro dos já consagrados como “o melhor que o autor alguma vez escreveu,” pelo que nenhum critério os hierarquiza. Porém, um ferrenho admirador de Aquilino tem de reconhecer que Mónica fica aquém de Aventura Maravilhosa. Eça, numa carta ao seu editor, teve frieza suficiente para pôr O Mandarim um degrau abaixo de O Crime de Padre Amaro. Exasperava-se Gaspar Simões nos anos 70 com a moda dos pessoanistas em publicar quaisquer quinquilharias e pechisbeques encontrados no baú. A Hora do Diabo não é um livro que dignifique Pessoa, ou a qualquer outro escritor. Os fragmentos de Quaresma, Decifrador e Histórias de um Raciocinador são aliás embaraçosos por demonstrarem a incapacidade dele em levar qualquer projecto a bom porto. Fragmentos funcionam bem com ensaios e versos; um fragmento ensaístico pode conter uma ideia brilhante; de metade de um verso pode irradiar beleza tremenda; mas porque é que alguém haverá de querer pagar para ler fragmentos de contos policiais quando a ficção policial, pela importância de cada detalhe na construção do enredo e do desenlace, é precisamente o género mais avesso ao fragmento? A novela policial anexa às cartas trocadas entre Pessoa e Aleister Crowley está entre as bodegas mais penosas que alguma vez li. Boa parte do que ele escreveu devia estar escondida nos armários da Academia, acessível apenas a estudiosos; não devia circular na rua a desvalorizar o essencial.

Esta obsessão doentia pelo esquecimento e o resgate de tudo só leva a exageros. “É altura de voltar,” escreveu a Visão em Agosto passado quando saiu a enésima edição de A Sibila. Eu nem reparara que Agustina tinha estado ausente. Quem é que a manteve afastada? Onde é que esteve? Mais ridículo foi Clara Ferreira Alves considerar há uns anos Alexandre O’Neill esquecido e subavaliado. Pensava eu que ele era um dos nossos poetas mais populares (foi dos poucos no século XX que enriqueceram as nossas expressões quotidianas) porque enrolou o cerebral numa forma vernacular e acessível. Estes melindres, contudo, são antigos. Em 1959, o Diário de Lisboa incluiu Torga entre os 3 candidatos ao Nobel; os outros eram Aquilino e Ferreira de Castro. O meio polarizou-se, houve tomadas de posição. A 31 de Dezembro de 1959, Sophia de Mello Breyner escreveu a Jorge de Sena pedindo-lhe que pusesse o nome num abaixo-assinado endereçado à Academia Real Sueca a propor Torga ao Nobel. Assinavam ainda, entre outros, O’Neill, Eugénio de Andrade e David Mourão-Ferreira. Em 1960, a contenda reduziu-se a Torga e Aquilino; ao longo desse ano, em alta as expectativas de que por fim um português venceria o prémio, Torga nunca esteve tanto na ribalta como até então. José de Melo escreveu-lhe um volume para a colecção “O Homem e a Obra”, da editora Arcádia. O ano terminou sem Nobel português, a vida continuou, mas Torga perseverou. O DL nunca deixou de publicitar os seus livros pela década afora. E os admiradores Sophia, O’Neill e Mourão-Ferreira, que então começavam a brilhar na imprensa, também não deixaram o nome dele sair de moda. Porém, a 27 de Fevereiro de 1969, Gastão Cruz começava o suplemento literário do DL a perguntar, “Miguel Torga: esquecido?” somente porque um livro dele saíra há 6 meses e ainda ninguém o resenhara. Que excesso de sensibilidade! Não havia, porém, razão para alarme: meses depois, Torga ganhou o Prémio Diário de Notícias.

No princípio, o culto dos esquecidos estava ligado a um nacionalismo congruente com a situação política do país no fim do século XIX. Hoje em dia, o culto tornou-se apenas um hábito, um método, um modo de ser. Um dos senãos dos hábitos é que ninguém os questiona. O crítico literário José Mário Silva fez uma revelação espantosa há pouco tempo: Pessoa só foi conhecido a sério em 1988, mercê do Centenário. (01:23:30) Este é um mito que não sei onde nasceu, mas já tem algumas décadas. Quando a APE criou em 1989 o Grande Prémio da Poesia, alguém se lembrou de afirmar isto: “Fernando Pessoa foi, durante longos anos, muito mais conhecido, e reconhecido, no estrangeiro do que em Portugal. ‘Tardiamente importámos a sua fama.’”. (Diário de Lisboa, 22/02/89) Isto é masoquismo derivado do complexo de inferioridade tão caro ao nosso escol. Que provas há de que Pessoa foi mais conhecido ou lido no estrangeiro do que em Portugal entre 1935 e 1988? Nenhuma. Há, quando muito, indícios de simpatia por parte de alguns intelectuais. Escreveu Octavio Paz um ensaio aqui, Roman Jakobson um ensaio ali. Antonio Tabucchi traduziu-o para uma antologia italiana. Talvez Jorge de Sena o ensinasse na Califórnia. Isso quer dizer, na melhor das hipóteses, que em certos países houve indivíduos com um certo nível de cultura interessados em Pessoa; não quer dizer que Pessoa tenha sido uma figura gigantesca neles.

Ainda bem que eles escreveram o que escreveram. A verdade, porém, é que ninguém sabe em termos quantitativos quantos leitores franceses, italianos ou mexicanos leram ou simplesmente conheciam o nome de Pessoa entre 1935 e 1988. Claro que já li alguns estudos de “recepção”, mas estes estudos são rally papers nos quais académicos reconstroem um rasto de referências: houve um tipo que mencionou Pessoa numa carta no ano X, houve outro tipo que citou um verso dele num ensaio no livro Z, e por aí fora. Isso não é ser-se “muito conhecido”, sobretudo porque nunca ninguém mostra números sobre vendas. Estranho, porém, é não aplicarem o mesmo critério a Portugal, onde certamente mais do que um ou dois literatos de nomeada se focaram sobre Pessoa no mesmo período. Muito do que os estudiosos estrangeiros fizeram foi construído sobre trabalho feito previamente por estudiosos portugueses. Uma lista exaustiva não faz sentido aqui, mas vamos só relembrar alguns títulos: Vida e Obra de Fernando Pessoa, a primeira e durante décadas a única biografia; Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa; Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda; Fernando Pessoa e a Crítica; Fernando Pessoa, o Insincero Verídico; O Esoterismo de Fernando Pessoa; Fernando Pessoa Revisitado; e o volume que António Quadros organizou em 1960 para a colecção “O Homem e a Obra” da Arcádia. Depois temos as colecções epistolares: Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues (Confluência, 1945); Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões (Publicações Europa-América, 1957); Cartas de Mário de Sá Carneiro a Fernando Pessoa (Ática, 1958); Cartas de Amor (Ática, 1978). E depois as importantes antologias: a antologia pioneira de Casais Monteiro, Poesia de Fernando Pessoa (Confluência, 1945); Páginas de Doutrina Estética, organizadas por Jorge de Sena (Inquérito, 1946); Um Fernando Pessoa, de Agostinho da Silva (Guimarães, 1959), só para mencionar algumas. Só o catálogo da Ática de 1942 até 1988 atesta dezenas de edições de e sobre Pessoa. Nuno de Sampayo, em 1969, já podia afirmar com segurança, “Estabeleceu-se, correctamente, que a poesia portuguesa se derrama por duas épocas, uma antecedente, outra posterior a Fernando Pessoa...” (Colóquio, n.º 55).

Ninguém pode avaliar o nível real de desconhecimento de um autor. Só podemos fazer uma estimativa grosseira com dados nem sempre expressivos: quantos estudos escreveram sobre ele, quantos livros dele foram editados, quantas menções houve na imprensa, quantos colóquios, conferências, etc., dedicados a ele. E os nossos números são bastante generosos a favor de Pessoa neste período. Mas isto não é um argumento sério, pois nós nunca, mas nunca podemos esquecer o modo como pensa o nosso escol: tudo o que é nacional é merda. Mas é claro que um ensaio de Paz vale mais do que uma biografia de Gaspar Simões; mas é claro que a antologia de Tabucchi fez mais por Pessoa do que a cruzada editorial que a Ática desempenhou ao longo de décadas. O nome de Pessoa apareceu de raspão num jornal francês? Todos o liam em Paris. Pode-se reunir facilmente mais de 1000 menções a Pessoa na nossa imprensa? Bem, isso não quer dizer nada.

Bolas, ainda vamos acabar a pensar que só descobrimos Pessoa por causa de Saramago, não vamos?

Para Mário Silva inventar um desconhecido, teve de consignar ao esquecimento aqueles cuja obra foi um testemunho de que esse desconhecido foi conhecido e amado e lido e estudado entre nós desde há muito. Isso, infelizmente, é muito comum. Dos actuais adidos dos esquecidos, ninguém incorporou tanto o género no seu método pessoal como Joana Emídio Marques, um dos nossos melhores críticos literários. Os artigos dela são mais longos do que as crónicas, citam as obras, o que é uma raridade, têm sentido de humor, dão voz a especialistas, e transmitem amor genuíno pela literatura. Mas raro o artigo onde não condene Portugal por ignorar ou ter ignorado certo escritor. Se escrever sobre Manuel Teixeira Gomes, não deixará de frisar a “história esquecida deste homem singular.” Se escrever sobre Mário-Henrique Leiria, não deixará de referir que “esquecidos e atirados no deposito da Biblioteca Nacional estão as dezenas de poemas escritos por Leiria e que urgia serem reunidos num volume onde os leitores pudessem conhecer a fundo a sua obra originalíssima, mesmo para os cânones do surrealismo (onde, de resto, ele nunca se fixou).” Se escrever sobre o poeta João Miguel Fernandes Jorge, aprendemos que é “bastante conhecido dentro do meio artístico e dos poetas mais velhos” mas “é, no entanto, mais ou menos ignorado pelas novas gerações.” E se escrever sobre O’Neill, não perdoará ao

meio literário que sempre olhou de lado enquanto tentava, sem sucesso, arranjar um lugar onde coubesse o seu tom anti-lírico, a sua ironia, os seus jogos de linguagem e, sobretudo, aquele mundo de gente e de coisas que ele trazia para a poesia e que o meio considerava não serem “sérias”, não serem “poéticas”, ou mesmo “de mau gosto”.

O’Neill, na verdade, não batalhou muito por aí além. Apenas um ano depois de publicar No Reino da Dinamarca, o DL entrevistou-o (18/6/59). Neste jornal, com uma das maiores tiragens da altura, O’Neill publicou inúmeros poemas, chegando assim a milhares e milhares de leitores, além de ter mantido no suplemento literário uma coluna semi-regular. (Só não foi regular porque surrealistas e prazos não se dão bem.) Atenção da imprensa nunca lhe faltou: António Ramos Rosa elogiou-lhe Abandono Vigiado (Seara Nova, 1961, Janeiro-Fevereiro); o Jornal de Letras até lhe fez o Questionário Proust (17/01/62). Emídio Marques tem muitas qualidades, mas porque se aventura pouco além das suas referências predilectas (boémios, poetas malditos, Café Gelo, etc.), tem um conhecimento da nossa história literária muito parcelar, quando a um crítico convém visão de conjunto. Por isso não percebe que os anos 60 foram a década ideal para um poeta irónico e jogorífico como O’Neill, pois o Estruturalismo, por um lado, e a redescoberta do Barroco, por outro, voltaram a pôr o artifício, o trocadilho, a arte pela arte (por oposição à escrita engajada) na ribalta, como tão bem o compreenderam os poetas experimentais Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro. (A Proposição: 2.01 é de 1965.) Os anos 60 foram um período de vanguardas, e em 1960 ser-se poeta vanguardista em Portugal significava justamente combater a tradição lírica, por que razão iconoclastas como Hatherly, Melo e Castro, Armando da Silva Carvalho, Sena, Cesariny e o próprio O’Neill tiveram os seus apogeus nesse tempo de rupturas, desencantamentos, esgotamentos de formas, fome de novidades e sucesso para quem estivesse disposto a arriscar a inovação.

Emídio Marques, por causa da sua tendência para transformar tudo numa guerra entre marginais e o mainstream, também se coíbe de fazer perguntas relevantes. Por exemplo, quando escreveu sobre os poemas de António Reis (obviamente “um poeta maior há 50 anos esquecido”), terminou o artigo assim: “Tão importante como os filmes e a poesia de Reis são para conhecer a literatura, a poesia da segunda metade do século XX português é compreender que meio cultural, editorial e académico é este cujas regras, disciplinas e ‘vontade de não saber’ permitiram que este poeta ficasse apagado durante 50 anos.” Não dá para inverter isto? Temos aqui um artista comunista, ligado ao neo-realismo (quando isso abria todas as portas do nosso pequeno e impenetrável mundo cultural), com um pé no meio editorial e outro no cinemático, e de renome internacional (o que também abre portas num país que bajula quem triunfa lá fora.) Não é plausível, se não provável, que não tenha reeditado os poemas porque não o quis? Quais foram as probabilidades de não ter tido um amigo editor que lhe fizesse essa caridade? Não é mais razoável propor que ele deserdou os poemas? Os autores estão sempre a fazê-lo. É uma teoria digna de investigação. Repensar a questão nestes termos, porém, destruiria o ângulo do esquecimento, condição sine qua non para as palavras fluírem de Emídio Marques.

E depois há a mania dela para fabricar esquecidos, ostracizados e marginalizados. Num artigo acerca da história do Café Gelo, lemos que

Apesar de alguns deles se terem tornado autores de culto, a verdade é que o reconhecimento, pelo grade público, das obras de Cesariny ou Herberto é recente e muitos outros estão totalmente esquecidos ou ignorados. Foi preciso chegarmos ao século XXI, 60 anos depois, para que estes poetas vejam as suas obras serem publicadas, lidas e apreciadas, ainda que num circuito muito restrito.

Tal como O’Neill, Cesariny e Helder cativaram a imprensa desde o início; os poemas deles aparecem nos jornais e revistas importantes dos anos 60. E se Helder não deu tantas entrevistas como Cesariny, sempre muito requisitado, foi por decisão pessoal, o que obviamente não impediu os seus livros de receberem elogios cintilantes desde 1958. Helder teve uma aclamação imediata e unânime. Emídio Marques não pode não saber isso.

Esta insistência constante na marginalização dos favoritos depois leva a contradições, como quando ela repara que António José Forte “sempre rejeitou as instituições literárias por considerar que eles impunham uma só visão do real que acabava por se transformar em lei, para quem quisesse fazer ‘carreira’.” Bem, parece-me que acabámos de descobrir o porquê da sua obscuridade. Outrossim, ela reconhece que João Miguel Fernandes Jorge é “homem discreto” que aliás “[se escusou] a ser entrevistado pelo Observador a propósito deste livro e não há, de resto, muitas entrevistas por onde possamos seguir-lhe o rasto.” Nesse caso, é apenas nossa a culpa de ele não ser mais famoso? É incúria nossa, ou resultado da decisão consciente deste poeta em levar uma vida monástica? Estes foram marginais e ficaram esquecidos por verem no esquecimento um gesto nobre de recusa e insubmissão.

Estas tresleituras depois levam a interpretações distorcidas, quando não a erros factuais. Emídio Marques, tal como Mário Silva, para inventar um desconhecido tem de rescrever o passado. Basta ver a sua enviesada interpretação do famoso Teste de Fernando Ribeiro de Mello. “A ideia era simples: emparelhava poetas com obras radicalmente opostas, ou de gerações diferentes, ou consensuais e desconhecidos os poemas (sic) eram lidos por ele e depois cronometrava-se quantos segundos duravam os aplausos a cada poema.” Como não podia deixar de ser, ela transformou isto na única coisa que sabe escrever: um confronto entre o establishment e os marginais, com o establishment a levar uma coça, claro. O establishment esteve aqui representado por Sophia de Mello Breyner; os marginais, por “uma quase desconhecida Natércia Freire,” o que é uma inversão da realidade digna da propaganda estadonovista. Em 1964, Freire já era uma poetisa e contista com obra espalhada por alguns dos jornais mais lidos da época. Quase da mesma idade (ela nasceu em 1920, Sophia em 1919), a popularidade de ambas cresceu em paralelo desde o início da década de quarenta. Freire beneficiou da prática da imprensa portuguesa até aos anos 80 em publicar poesia e contos diariamente, para levar a sua obra a milhares de leitores. Encontram-se contos dela no Acção já em 1942 e poemas no DL em 1945. (Francisco Sousa Tavares, o marido de Sophia, não podia deixar de conhecer a poesia de Freire visto que ele também escrevia para o Acção na mesma altura; aliás é de 30 de Novembro de 1944 o seu famoso ensaio sobre a poesia de Sophia.) Freire recebeu o Prémio Antero de Quental em 1947 e o Prémio Ricardo Malheiros em 1955. Resenhas da sua obra existem desde cedo, indo das negativas (Gaspar Simões, DL, 11/07/45) às jubilantes (Ramos Rosa, Diário Popular, 31/5/62 e 7/6/62). Em 1950, Freire foi convidada a dar uma palestra sobre poetisas brasileiras no Círculo Eça de Queiroz, uma agremiação intelectual onde já estiveram presentes Maurice Maeterlink, T.S. Eliot, Graham Greene, Ortega y Gasset.  A sua presença na imprensa anterior a 1964 passa ainda, entre outros, pelo Diário Ilustrado, pelo Litoral, pelo Jornal do Fundão, por O Debate, por O Século Ilustrado, pela Colóquio. Sophia, portanto, não perdeu para uma desconhecida; perdeu para uma veterana popular multi-premiada que, além disso, privava com o meio literário por dirigir desde 1955 a secção literária do Diário de Notícias.

Outro eleito por Emídio Marques para o improvável papel de esquecido foi José Cardoso Pires, não obstante honras de fotobiografias e documentários da RTP. Ela participou há pouco tempo na criação do embuste de que a obra dele esteve indisponível durante anos por desmazelo da Leya. Uma situação “criminosa”. Para reforçar este embuste, recorre a Albano Matos (“Como pudemos esquecer Cardoso Pires?”) e ao totalmente imparcial nesta questão Francisco Vale (“Como nos podemos dar ao luxo de ignorar um escritor da grandeza de Cardoso Pires?”). É de aplaudir este estratagema engendrado para dar enfoque à reedição das obras de Cardoso Pires na Relógio D’Água. Há três anos ainda pude comprar 6 livros dele na Leya na Feira do Livro; tenho a edição da BIS d’O Delfim, leve, barata, portátil e livre de prefácios de Gonçalo M. Tavares.

Jorge de Sena também está na calha para ser convertido em esquecido a precisar de salvamento. Quando há pouco tempo saiu uma escusada edição de luxo de O Físico Prodigioso, o refrão voltou à acção: “Ou não sabemos ou esquecemos: essa grande história de amor bissexual e pan-erótica da literatura portuguesa, escrita em 1964 e publicada em 1966, ali mesmo nas barbas da censura e dos outros vigilantes da moral pública que não deram por nada, O Físico Prodigioso de Jorge de Sena.” Quem é o que o esqueceu visto que este livro foi editado há uns anos numa cuidada edição de capa dura pela Babel. Mas não é só de edições que falamos; é o próprio estatuto de Sena que está por um fio. “Falha apenas Portugal por ainda não ter feito esse exercício de auto-crítica que dê a Sena o reconhecimento que ele merece,” esclarece ela. Esta indignação tem piada, porque não me recordo de ela alguma vez ter usado a sua posição privilegiada na imprensa para trazer à atenção do leitor comum o estudo contínuo que Jorge Fazenda Lourenço lhe vem dedicando há décadas (Jorge de Sena - Novas Perspectivas, 30 Anos Depois; Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena; A Poesia de Jorge de Sena; Matéria Cúmplice; Corpo – Arquitectura – Poema; O Essencial sobre Jorge de Sena). Quanta mais penitência terá o país de fazer? Estão publicados os seus contos, poemas, ensaios e cartas; Maria Alzira Seixo e Vítor Aguiar e Silva têm estudos sobre ele, só para citar dois académicos famosos; as Universidades organizam-lhe colóquios. Quem nega a grandeza de Sena? O que é que apaziguaria Emídio Marques? O Panteão? Um Prémio Camões retroactivo? O mais ridículo é ela crer que essa consagração passa por uma pirosa edição caríssima com ilustrações desnecessárias (serão os leitores de Sena atrasados mentais para precisarem de suporte visual?) que sempre têm por base a insinuação de que completam, aperfeiçoam o original, de que o texto não basta, de que no fundo uma imagem realmente vale mil palavras. Fazer isso a um escritor tão rigoroso como Sena é uma estranha forma de o homenagear.

A rescrita do estatuto de Raul Brandão não se diferencia disto: “Falar em autores portugueses mortos — e mortos há quase um século — é quase um crime de ‘mau gosto’, além de que, como ninguém lê, ninguém conhece, ninguém sabe, não dá para exibir cosmopolitismo e conhecimento das novidades que, como se sabe, é o que verdadeiramente importa.” A seguir exuma o mito de que “só em 1967, quando se comemorou o centenário do seu nascimento, começou a haver um interesse maior e uma visão mais clara da grandeza e singularidade da sua obra.” Tendo em conta quem escreve isto, não podia faltar a menção a Helder, e logo aprendemos que Húmus Poema Contínuo teve um papel cimeiro nesse processo de canonização. Seria uma causa perdida tentar despersuadi-la disso. Não digo que o cut-up dele não tenha tido importância enquanto sinal da atenção dada a Brandão, mas essa atenção é o culminar de um processo que começou nos anos 1920 e ignorá-lo é, paradoxalmente, votar ao esquecimento os esforços de muitos estudiosos dignos da nossa gratidão. Um jovem Ferreira de Castro publicou o curioso volume Mas… (1921) dedicado à obra de Brandão. Fãs foram Aquilino Ribeiro (que pôs a Bertrand a publicar-lhe a obra) e Vitorino Nemésio, o qual lhe dedicou um ensaio em Sob os Signos de Agora (1932). É verdade que nos anos 40 e 50 o prestígio de Brandão diminuíra. Em 1948, Casais Monteiro ainda tinha de frisar que o que Brandão escrevera foram mesmo romances, apesar de não o parecerem. Em 1952, Pedro da Silveira, ao sintetizar a história do romance português desde o século XIX ao pós-guerra, nem o mencionou. Mas foi também por esta altura que Guilherme de Castilho começou a trabalhar na biografia dele, a qual viria a lume em 1979. No entrementes, porém, a imprensa foi mantendo vivo o seu nome (Brotéria, Diário Popular, O Primeiro de Janeiro, etc.) Em 1962, o DL destacou o início da publicação das Obras Completas de Raul Brandão, editadas pelo Jornal do Foro e dirigida por Manuel Mendes, com um estudo preliminar de Castilho. Em 1963, o Jornal do Fundão homenageou-o; João Pedro de Andrade chegou mesmo a posicioná-lo como precursor do nouveau roman, uma táctica engenhosa para o tornar relevante para uma geração apaixonada por Alain Robbe-Grillet. Este crítico ainda publicou no mesmo ano o volume Raul Brandão – O Homem e a Obra, da Arcádia. Isto foi um passo decisivo; a colecção já versara sobre Aquilino Ribeiro, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes. Esta inclusão enviava uma mensagem clara: Brandão estava plenamente integrado na história literária portuguesa, o seu estatuto de outsider terminara.

Disso já não havia dúvidas em 1964. Neste ano, Robbe-Grillet deu em Portugal uma conferência sobre as suas técnicas romanescas. Artur Portela Filho, um dos seus epígonos, noticiou o evento a 16 de Abril no Diário Popular. Por esta altura, Portela Filho já havia recebido aval para remodelar o suplemento literário do Jornal do Fundão no quartel-general da disseminação do nouveau roman em Portugal. Mas não lhe bastavam as páginas de um suplemento onde semana a semana defendia a sua vanguarda contra os detractores. É interessante o modo como categorizou Brandão. “E como no século XIX Eça apagou a presença verdadeiramente ibérica de Camilo, também no século XX os autores de emergência estão apagando Raul Brandão e Bessa-Luís.” Para Portela Filho, Brandão não era nem um desconhecido nem um precursor de Robbe-Grillet; era um escritor associado à tradição, ao passado; já estava tão naturalizado que nem se concebia a obra dele como um mistério, uma surpresa; a nova geração já o podia catalogar entre os autores consagrados que teriam de lhe dar passagem para fazer a sua própria revolução.

Brandão, porém, ainda não se safou de continuar a ser reduzido a eterno redescoberto. Recentemente, o poeta Diogo Vaz Pinto demonstrou que a crítica e a falta de bases históricas são perfeitamente compatíveis:

No ano em que se assinalam os 150 do seu nascimento e o centenário da publicação da sua mais emblemática obra, Húmus, Brandão vê o reconhecimento do seu génio projectá-lo definitivamente para o estatuto de clássico da nossa literatura. Nas comemorações das efemérides, na multiplicação de iniciativas, seja através de congressos, festivais e outras sessões públicas, ou pelo impulso editorial na disponibilização da sua obra, tem-se assistido a um invulgaríssimo pacto entre as vontades de muitas pessoas e instituições para que 2017 seja o ano em que o autor é resgatado de uma certa obscuridade ou esquecimento.

Isto é baptista-bastoso. Quão felizardos somos, estarmos vivos no ano exacto em que o génio de Brandão foi projectado definitivamente para o estatuto de clássico! Ainda bem que isso não aconteceu em 1967 ou 1979 ou 1988 ou 1999 ou 2015, mas em 2017, para enriquecer a minha existência com um evento singular. Eu vi; eu estive lá! O que Vaz Pinto faz é o mesmo que fazem Mário Silva e Emídio Marques: apagam a actividade crítica do passado para inventar esquecidos. Não há uma epidemia de escritores esquecidos; há uma epidemia de jornalistas culturais pouco lidos além do superficial, que pensam por lugares-comuns. Lendo estas coisas, fico com a impressão de que eles acreditam mesmo que, durante o Estado Novo, o mundo académico esteve cheio de pascácios que, ou ficaram de braços cruzados durante 50 anos, ou gastaram o seu tempo só a escrevinhar loas aos premiados do SNI, em vez de se ocuparem com o habitual trabalho de estudar, compreender, organizar, ensinar, divulgar as obras dos nossos maiores escritores. Ficaria melhor aos jornalistas culturais desmontar ideias feitas em vez de as disseminarem.

Vergílio Ferreira é o exemplo supremo das lucubrações de Emídio Marques para criar um “marginalizado”. Segundo ela, Ferreira agoniza num limbo, “nem alegremente lembrado, nem totalmente esquecido.” Concordo, até há pouco tempo a obra esteve esgotada, antes de a Quetzal substituir a Bertrand na sua reedição. Contudo, é comum escritores desaparecerem por algum tempo após a morte, por fadiga de sobre-exposição, antes de regressarem. Imperdoável é ela tentar refazer Ferreira como alguém a quem o reconhecimento tardou a chegar em vida: 

Só depois da publicação dos primeiros volumes de Conta-Corrente é que ele ganha alguma auto-estima e o meio cultural português parece ser obrigado a reconhecer-lhe a existência. É convidado por Marcelo Rebelo de Sousa para escrever uma crónica semanal no Expresso (nunca ter tido espaço para escrever em jornais era uma das suas mágoas). E só nesse mesmo ano ganha o primeiro prémio literário da sua carreira, o D. Dinis. Até aos anos 90 ganhará todos os prémios literários inclusive o Camões, em 1992. 

Com um pouco de investigação jornalística, ela teria reparado que Vergílio Ferreira recebeu o primeiro prémio literário a 22 de Maio de 1960 por Aparição. Quando a Sociedade Portuguesa de Escritores lho entregou, o DL entrevistou-o (25 de Maio). Tão respeitado era ele, que o DL publicou no suplemento literário o discurso integral lido na cerimónia (21 de Julho). A 14 de Julho, o DL reportava que Aparição ia na 2.ª edição:

Acolhido pela crítica e pelo público com entusiasmo excepcional, distinguido com o único prémio literário português de grande prestígio, este livro tem na nova tiragem uma outra forma, não menos significativa, de consagração. Só por ele – se outros de idêntico nível não houvesse a esperar das suas relevantes qualidades criadoras – já Vergílio Ferreira conquistou um lugar definitivo no mais alto nível da nossa literatura contemporânea.

Isto é um escritor a lutar pela aceitação num meio hostil ao seu talento? Há os factos, há a realidade, e depois há escritores com taras da perseguição e um amor masoquista pela vitimização, que quanto mais louvados pela crítica forem mais injustiçados se pintam, por uma qualquer necessidade psíquica que nem vou perder tempo a fingir que quero compreender. Pior do que ele, só Jorge de Sena, para quem a aclamação universal de que gozou em vida nunca foi universal o suficiente para o seu ego hipertrofiado.

Em defesa de Emídio Marques, Ferreira adiantou-lhe muito trabalho. Numa série de romances chamada Contra-Corrente que muitos confundem com diários, ele fabulou um sem-fim de perseguições imaginárias, de desdéns da parte dos seus pares malévolos, de mágoas por não ser mais lido, mais amado, mais premiado, mais solicitado, mais homenageado. Estava no seu direito, como romancista, assim como o historiador e o jornalista têm o dever de não confundir factos com enredos novelísticos. Faltaram-lhe estudos? João Palma-Ferreira publicou uma monografia acerca dele em 1972, o único escritor vivo a quem ele dedicou um estudo antes de se tornar um dos nossos maiores historiadores literários. Tem Emídio Marques consciência de que, entre 1947 e 1981, Ferreira deu pelo menos 70 entrevistas? Delas extrairia trechos para montar Um Escritor Apresenta-se. Se algo ficou por dizer, tal não se deveu por falta de jornais e revistas pendurados nos lábios dele. Até O Século Ilustrado, que não foi exactamente o epítome da excelência cultural, tirou uma folga das vedetas de cinema para o entrevistar (18/06/60). Quando é que lhe faltaram oportunidades para colaborar com a imprensa? Os seus ensaios dispersaram-se pela Ler, a Árvore, a Colóquio, o Jornal do Fundão, Jornal do Comércio, Seara Nova, O Tempo e o Modo. Encontram-se depoimentos e inquéritos desde o Litoral ao Diário Popular. (Para quem tiver curiosidade em saber quais os 10 romances que ele levaria para a Lua, a resposta está no número de 04/06/64). A polémica com Pinheiro Torres realizou-se na imprensa; e o grande entretenimento da Primavera de 1968 ocorreu nas páginas do DL, onde durante semanas discutiu o Estruturalismo com Eduardo Prado Coelho.

A preferência de Joana Emídio Marques por escritores acossados e malditos tem um efeito perverso de que talvez nem se aperceba: automaticamente transforma em marginais todos os escritores de que gosta, mesmo quando os factos demonstram à saciedade que viveram integrados no meio literário. Só lhe faria bem ultrapassar esse vício. Ainda não se apercebeu também da ironia de os seus artigos andarem ao reboque do mercado; festeja os “esquecidos” que o mercado lhe manda festejar. Se estes são os autores que quer festejar, muito bem; mas tenha ao menos consciência de que o tom de alarme que grassa pelos seus artigos não faz sentido quando escreve sobre livros acabadinhos de chegar às livrarias.

Pois esta é a verdade: as coisas não andam assim tão más. O próprio Francisco Vale o reconhece. Numa entrevista, puseram-lhe esta questão: “A nossa literatura do século XX está erradicada da ementa editorial actual. Há razão para tal esquecimento?” Respondeu ele:

Para mim não está, mesmo que não apresente vendas espectaculares, apenas significativas. Os livros de Cardoso Pires estão a ter um número muito apreciável de novos leitores. Creio que houve autores do século XX que tiveram um certo destaque e que dificilmente chegam aos leitores de hoje, mesmo que haja um bom trabalho nesse sentido, mas há outros que podem e devem ser lidos.

Hoje em dia quem é que não está disponível? Na INCM estão José Régio, Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, Vitorino Nemésio, Tomaz de Figueiredo, Afonso Lopes Vieira, António Feijó, Domingos Monteiro. Na Assírio & Alvim estão Teixeira de Pascoaes, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Eugénio de Andrade, Sophia. A obra de Sena encontrou novo fôlego graças à Babel, primeiro, e à Guerra & Paz, mais recentemente. Miguel Torga está na Dom Quixote. A Relógio d’Água anda a publicar edições críticas de Raul Brandão. A Quetzal tem Aquilino Ribeiro e Vergílio Ferreira. A Ulisseia reeditou há não muito tempo obras de Maria Judite Carvalho. A Caminho voltou a reeditar Fernando Namora e Alves Redol. O neo-realismo tem um museu em Vila Franca de Xira. Nunca os nomes cimeiros da literatura portuguesa estiveram tão acessíveis ao grande público. Falta só a vontade de os ler. Insistir num discurso de olvido é ignorar o trabalho meritório de muitas editoras em manter viva a nossa literatura. Sem grande surpresa, este trabalho meritório passa muitas vezes ignorado pelos mais ardentes adidos dos esquecidos. Honra seja a Baptista Bastos, foi tanto quanto sei o único a apontar na imprensa o maior evento editorial do século até agora: a edição das Obras Completas de Tomaz de Figueiredo, uma demanda quase arqueológica para devolver aos leitores um grande poeta e romancista inacessível durante meio século. Mas, quantas editoras recebem sequer um obrigado público?

Se analisarmos a oferta no mercado, perceberemos que as editoras têm feito o seu trabalho. E os críticos literários, fazem-no? Vivem tão viciados na crença de que está tudo perdido e esquecido, que nem sabem apreciar a era dourada que atravessamos.  Há algo a fazer para remediar esta incúria masoquista? Provavelmente, não. Ainda assim, mencionarei dois críticos que remaram para fora deste vórtice. Merecem-no por isso. Um deles foi Fernando Venâncio. Em breves linhas em 1995 fez uma radiografia do adido-tipo. “Fala-me você de autores nossos hoje esquecidos, pelo menos pouco considerados. Percebo-lhe um tom de amargura, um quase agastamento. Como se eles em você sobrevivessem, e através de você nos censurassem: ‘Foi para isto que, então, que tanto andámos trabalhando?’” Separou-se Venâncio dos outros por rejeitar a fácil comiseração:

Nunca fui sensível a este tipo de indignação. Parto do princípio de que nenhum juízo da posteridade é totalmente arbitrário, e que, portanto, nenhum esquecimento é totalmente imerecido. Acho perfeito (é um exemplo) que os admiradores de Gomes Leal ou de Malheiro Dias nos vão lembrando alguma página meritória, mas não me convencem lamúrias sobre o olvido em que entraram. (Maquinações e Bons Sentimentos, pp. 43-44)

Aprecio esta atitude pela sua originalidade, embora sem a partilhar. Para mim nunca é perda de tempo lutar por um escritor que amamos. A insistência, a divulgação, são factores importantes. Eu adoro a poesia simbolista de Eugénio de Castro, um escritor que nunca granjeou o favor do público ou da academia. Nem por isso deixo de ter esperança de que venha um dia a ocupar o seu lugar entre os nossos outros grandes poetas. É por isso que prefiro a alternativa:

Acontece que ninguém pode ter a pretensão de escrever sobre todos os livros, como se estivesse no lugar justiceiro de um Deus absoluto. Quem escreve nos jornais tem "os seus autores" e faz o possível por convencer os outros, utilizando os meios retóricos de que dispõe, de que esses autores merecem um esforço de leitura.  Quem acha que outros são injustamente esquecidos só tem que pegar activamente na pena para os lembrar, e não andar a puxar a aba do parceiro.

Eduardo Prado Coelho escreveu isto numa crónica no Público. Referia-se a um tipo diferente de esquecimento, não dos antigos, mas dos contemporâneos, daqueles a quem os resenhistas descuram por não poderem ler tudo dado o volume de publicação anual. Mas as suas palavras adequam-se ao nosso assunto. O passado acaba por gerar um corpo gigantesco de autores, pelo que não se pode dar atenção a todos. O conselho dele – escrever sobre eles – é tanto mais sensato quanto mais deprimente é o facto de os indignados adidos dos esquecidos raramente o acatarem. Falo de pessoas que trabalham na imprensa, têm crónicas semanais em jornais e revistas; poderiam passar o ano inteiro a relembrar 52 escritores, ou a passar um ano a escrever sobre o mesmo 52 vezes, como no passado, quando os centenários se prolongavam pelo ano adentro. Porém, os adidos depressa se enfastiam com a sua auto-proclamada missão; indignam-se apenas durante 900 palavras, antes de se transferiram na semana seguinte para um outro tópico qualquer do banal quotidiano que precisa também urgentemente da indignação deles. Um bom exemplo destas figuras ridículas é João Pedro George. Em 2006, insurgiu-se contra os críticos que ignoram os escritores de que ele gosta:

A Eduarda Dionísio não é uma «quase escritora», capaz de «quase livros». É uma mulher com obra importante publicada no domínio do romance e do ensaio, em particular sobre as questões da cultura portuguesa. Muito devo aos livros de Eduarda Dionísio, sugeriram-me caminhos quando estava a fazer o mestrado. Repare-se: a Eduarda Dionísio tem sido uma autora praticamente ignorada pelas páginas da imprensa. O mesmo se aplica à nota brevíssima sobre a tradução de Moby Dick, feita por Alfredo Margarido (juntamente com outro tradutor que não sei agora identificar). Alfredo Margarido, também ele esquecido e ignorado pelas páginas culturais, é um autor de primeira ordem de grandeza e que, pelo que tem produzido (uma olhadela à bibliografia, extensa, de Alfredo Margarido deixa qualquer pessoa em sentido), merece muito mais do que uma mera chamada de atenção. Além disso, traduções de Moby Dick não as há assim tantas e com a qualidade desta (lembro a tradução, miserável, incluída numa colecção de livros do jornal Público). Pergunto: que critérios justificam que um «quase poeta», capaz de «quase poemas», mereça uma relevância muito superior a Eduarda Dionísio ou a Alfredo Margarido?

Esqueceu-se que tinha um blogue muito popular, o qual podia ter transformado num espaço para escrever sobre esses escritores de “relevância muito superior” aos escolhidos pelos críticos dos jornais. É desplante e preguiça exigir aos outros um empreendimento que ele próprio não esteve disposto a realizar. Mas isso tê-lo-ia obrigado a elogiar, uma actividade a que é alérgico. Ele próprio admitiu algures que o elogio não é o seu forte. Elogiem os outros os escritores favoritos dele; assim não sacrifica a sua fama de durão, pois sem ela só lhe resta a fama de bom biógrafo num país de outros tantos bons biógrafos.

António Guerreiro é outro perito em perdas de oportunidades. Não há muito tempo pintou um quadro negro da situação da distribuição do livro: “Muita da melhor literatura que por cá se edita, assim como a quase totalidade da produção no campo das ciências sociais e humanas, mal chega às livrarias, quanto mais ao espaço da crítica. Nada disto é novidade e tem sido ciclicamente repetido.” Isto é sobretudo mau para os novos escritores. “Porque é que um excepcional livro de poesia, como é o livro de Andreia C. Faria, Tão Bela Como Qualquer Rapaz (e aqui ainda é mais doloroso), morre silenciosamente nas duas ou três livrarias do país que o acolhem?” Guerreiro, porém, não fez nada por esta poetisa. Sim, os livros hoje em dia não têm a visibilidade que já tiveram. Quem o contesta, quem o desconhece? Mas até parece que ele não tem uma crónica semanal que chega a milhares de potenciais leitores. Porque é que lamentou a morte silenciosa deste livro à bisga em vez de lhe escrever um elogio cheio de vida? Está à espera que os outros críticos do Público o façam por ele? Fiquei sem saber porque é que este livro está entre a melhor literatura que se edita por cá. Portanto, vou ler outra coisa qualquer.

Escrevam sobre os esquecidos, aconselhava Prado Coelho. Outrora virei-me para os adidos em busca de persuasão, mas ela nunca veio. O discurso dos adidos não tem nada que ver com persuasão, só com acusação. Apresentar um escritor esquecido ou desconhecido é um acto de crítica literária, e toda a crítica literária é uma arte retórica. Em termos aristotélicos, pertence ao género epidíctico. Toda a boa crítica é uma celebração, um acto de louvor, se não de amor. Porque não há valores absolutos na Estética, o crítico deve dar menos importância à explicação do que ao encantamento. Um bom crítico sabe transmitir a beleza e o entusiasmo de um poema ou de um romance.

O pior mesmo é que estas 900 palavras tendem a ser rudes, inflamadas, belicosas, agelastas, para não dizer desarticuladas, chatas e carentes de qualquer dote persuasivo. Nada me agrada mais do que uma dose de histérico kulturpessimismus, de saber que o mundo está a descambar para o caos total por eu nunca ter lido autor A. Como alguém destituído de poder, apraz-me saber que está nas minhas mãos o fim da civilização. Chega a ser sedutor não ler autor Z, só para acelerar a desagregação da sociedade civil. O sermão, a invectiva, o vitupério, a verrina, a diatribe, eis os géneros favoritos dos pretensos guardiões da nossa memória colectiva, próprios daquele momento primordial em que o culto do passado e a raiva se interligaram para sempre. Porque o Ultimato Britânico caiu sobre o país como o anúncio do Apocalipse, como o finnis patrie, para usar a expressão de Junqueiro, a defesa da tradição e da cultura ganhou um tom apocalíptico. Volvido um século, esse tom sobrevive em catastrofistas como Clara Ferreira Alves, Ana Cristina Leonardo, António Guerreiro e os demais que se elegeram para orientar a cultura e formar o gosto. “Os portugueses,” escreveu Luís António Verney, “não obstante que comummente sejam invejosos e digam mal uns dos outros, quando porém tomam o empenho de elogiar, mentem desencaixadamente e tudo transformam, e até dizem mal dos outros todos para elogiar o seu herói.” Os adidos dos esquecidos demonstram que isso, infelizmente, continua a ser verdade. Muitos deles usam esses esquecidos como pretexto para destilar o ódio de forma socialmente aceite. Afinal de contas, se estão a lutar pelos esquecidos, não podem ser totalmente malévolos. Aliás, a malevolência é apenas um sinal do quanto se preocupam. Quanta insegurança deve varar Ana Cristina Leonardo a respeito do lugar de Herberto Helder no cânone para achar mesmo que o facto de Valter Hugo Mãe obter mais resultados do que ele numa pesquisa do Google significa algo. Não significa, não há sequer nenhuma conexão lógica entre uma coisa e outra, mas através de Helder dá para rebaixar Hugo Mãe sem ser fulminada por isso. É para merecer esta carta-branca que Emídio Marques também romantiza um passado que foi bem menos aurinitente do que julga. “Tínhamos o Cardoso Pires, o Saramago, a Agustina [mas não, curiosamente, António Lobo Antunes], e agora temos o José Luís Peixoto, o Valter Hugo Mãe, o João Tordo e mais o rol de prémios Leya cujo nome já esquecemos.” 

Crescendo no meio desta actividade, cheguei mesmo a pensar que isto era comportamento normal, que era assim que a defesa do passado se fazia; até eu agi assim em tempos. Hoje em dia, vejo-o como um desperdício de energia. Alguém devia dizer aos adidos que podem exaltar o seu favorito sem massacrar os outros à sua volta só para ele ficar melhor na fotografia. Os escritores merecem ser julgados pelo que escreveram. Não há escritores intocáveis, muito menos os actuais; tampouco estou a proscrever resenhas negativas aos críticos de jornal. Penso aliás que foi a falta de uma tradição de resenhas negativas que exacerbou este problema: o medo de emitir uma opinião, o medo de julgar, o medo de avaliar, o medo de ofender, levou à falta de um cânone sólido e aceite de forma generalizada. Penso ainda que foi a falta de rigor na avaliação dos escritores aparecidos nos últimos vinte anos, os quais foram deificados depressa e sem resistência, que tem levado tantos adidos a iras tremendas. Anos atrás José Riço Direitinho fez uma crítica bastante inócua a respeito de um romance de Valter Hugo Mãe, mas atreveu-se a umas observações menos elogiosas e caiu-lhe logo em cima a acusação de inveja. Quem é que quer lidar com isso? É bem mais fácil elogiar a tempo inteiro. Adivinho o raciocínio dos adidos: os novos estão a colonizar sem provas dadas do seu talento a visibilidade que pertence aos que vieram antes deles. Não os posso culpar se pensarem assim; os resenhistas em Portugal têm descurado a avaliação e gradação, resumindo-se à divulgação.

Se os novos escritores têm imperfeições, alguém as exponha de forma coerente, rigorosa e com recurso aos textos, num espaço dedicado a esse fim. Porque a evocação de figuras do passado e a crítica à literatura actual não são a mesma coisa e não deviam estar misturadas no mesmo texto. A impressão que eu tenho é que a resenha negativa é um tabu tão inquebrável entre nós, que uma farpada só é permissível neste contexto de defesa do passado; como há a ideia generalizada de que esse passado está sob ataque, tudo o que se faça em seu nome é perdoável. É  como  uma válvula de pressão. Mas nenhum escritor merece ser atacado em duas linhas rápidas de um artigo, sobretudo quando esse ataque serve apenas o engrandecimento do favorito do crítico. Isso só leva o leitor a questionar a parcialidade do adido. O teu favorito não tem a atenção que merece? Não chores, não te queixes, não embirres! Cita, revela, partilha, explica, encanta! Só leio por causa daquilo que está na página: mostra-me um verso sublime, uma frase original; mostra-me o humor, a inteligência, o sentimento, a tensão do enredo; mostra-me a criatividade, e talvez me convenças.

Uma das maiores conquistas do século XX foi a liberdade para nos danarmos a nós próprios. Há quem escolha essa danação através da amnésia. É uma prerrogativa pessoal, e tenho sempre pudor em dizer aos outros como devem viver as suas vidas. Por mim, acredito na importância do conhecimento do passado. Conhecê-lo é ter raízes e ser sólido como uma árvore. Hoje em dia há quem julgue o passado uma prisão e clame por liberdade. Mas essa liberdade nunca será mais do que a liberdade da poeira, que voeja no ar para aqui e para à revelia de ventos que não controla, e que por fim cairá no chão para ser pisada por cães. Antigamente, dois tempos importavam: o passado e o futuro. O passado através do culto dos parentes, dos pais, dos reis mortos; e o futuro porque a vida era uma preparação para habitar um Além. Estes dois pólos condicionavam a vida. Hoje, só importa o persistente presente; a sociedade evoluiu nesta direcção: não há muito a fazer para levar alguém a se interessar pelo passado. Portanto congratulo os que não desistem dessa demanda. Pessoas cientes do passado estão mais aptas a tomar o controlo das próprias vidas e a interagir com o mundo sem medo nem amargura. O passado faz bem à alma pelo quanto nos ensina que o que nos parece bárbaro, ridículo, injusto e insondável hoje em dia também pareceu bárbaro, ridículo, injusto e insondável a mentes mais sábias do que as nossas. Dos autores antigos não aprendemos que o passado foi mais simples, mais apetecível; aprendemos que o mundo sempre foi tão horrível quanto suspeitamos que é. Isso sempre me consolou, e para nunca me esquecer dessa simples sabedoria, porque o mundo me está sempre a tentar enganar com o oposto, para me revitalizar nela, vale a pena nunca deixar de voltar o passado.

Modificado a 3 de Março de 2018.

5 comentários:

  1. 'dias em que a esquerda policiava a cultura e aureolava talentos duvidosos, através de revistas sectárias como a Vértice, resenhas sempre positivas de camaradas como Mário Dionísio e Alexandre Pinheiro Torres'...
    (Ah tigre! O Salazar na clandestinidade, o Ferro desaparecido em combate... E outros mambos!)

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  2. Eh, pá, estou pasmado como raras vezes! Cheguei aqui nem sei bem como. Luís Miguel Rosa? Vou estar atento a este nome. E digo-o sem ponta de ironia.

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